HÁ MUITOS ANOS, QUANDO AS GELEIRAS AINDA SUSSURRAVAM SEGREDOS DOS DEUSES ANTIGOS E OS VENTOS DO NORTE NÃO OBEDECIAM A HOMEM ALGUM, UMA FORÇA ADORMECIDA JAZIA SOB O GELO ETERNO DE YAKUTSK. NÃO ERA FEITA APENAS DE CARNE OU ESPÍRITO, MAS DE LEMBRANÇA. DE UM TEMPO EM QUE AS CRIATURAS CAMINHAVAM ENTRE OS HOMENS, E OS LOBOS FALAVAM EM SONHOS.
THORMUND SE SE LEVANTOU LENTAMENTE, COM OS OLHOS FIXOS NO CRISTAL RACHADO. AS RUNAS EM SEU CAJADO COMEÇARAM A BRILHAR FRACAMENTE, COMO SE ALGO ALI PERTO AS ESTIVESSE DESPERTANDO.
“ESSE FRAGMENTO… NÃO FOI DEIXADO AQUI. FOI PLANTADO”, ELE DISSE, COM A VOZ BAIXA, COMO SE TEMESSE QUE ALGUÉM — OU ALGO — OUVISSE.
“PLANTADO POR QUEM?”, PERGUNTOU FREYDIS, ERGUENDO O ESCUDO.
“OU PELO QUÊ,” CORRIGIU EIRIK, ENCARANDO A BORDA DA FLORESTA ONDE A GEADA PARECIA SE ESPALHAR, ÁRVORE POR ÁRVORE, COMO SE TIVESSE VIDA PRÓPRIA.
DE REPENTE, UMA FIGURA SURGIU DO MEIO DA NÉVOA FINA QUE COBRIA OS ARREDORES DA ALDEIA. ERA BAIXA, ENCAPUZADA, COM PASSOS LEVES COMO OS DE UM CERVO. NINGUÉM A OUVIU CHEGAR.
“VOCÊS ESTÃO ATRASADOS,” DISSE A FIGURA, REVELANDO-SE UMA CRIANÇA — UM GAROTO DE NÃO MAIS QUE ONZE INVERNOS, COM CABELOS BRANCOS COMO A NEVE MAIS PURA E OLHOS DOURADOS COMO OS DOS LOBOS DE YAKUTSK.
FREYDIS AVANÇOU UM PASSO. “QUEM É VOCÊ?”
“SOU O PRIMEIRO A LEMBRAR,” ELE RESPONDEU. “E O ÚLTIMO A ESQUECER.”
ANTES QUE PUDESSEM RESPONDER, O GAROTO ESTENDEU A MÃO E DA PALMA DELA SURGIU UMA CHAMA AZUL, SUAVE E SILENCIOSA. COM ELA, ELE TOCOU O CRISTAL RACHADO. NUM INSTANTE, A ESCURIDÃO PULSANTE DESAPARECEU, E NO LUGAR FICOU APENAS UMA PEDRA OPACA, FRIA, SEM MAGIA.
“VOCÊS PRECISAM ME LEVAR ATÉ OS REIS DO NORTE. ELES PRECISAM OUVIR O QUE VI. O QUE ELE ME MOSTROU.”
EIRIK SE AJOELHOU DIANTE DELE, TENTANDO OLHAR ALÉM DAQUELA APARÊNCIA FRÁGIL. “QUEM MOSTROU? DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO?”
“NÃO TENHO NOME,” DISSE O MENINO. “MAS ELE O TEM. E SE O NOME FOR DITO, O GELO CAI. A ESCURIDÃO DESCE. TUDO SE DOBRA.”
TODOS SE ENTREOLHARAM. O VENTO, ANTES CALMO, GANHAVA VELOCIDADE. FOLHAS CONGELADAS RODOPIAVAM EM VOLTA DELES, ASSOBIANDO ALGO ESTRANHO.
“ELE ME VÊ… SEMPRE QUE FALO DELE.”
THORMUND SE APROXIMOU. “SE O QUE DIZES É VERDADE, ENTÃO HÁ MAIS DELES... ESPALHADOS.”
O MENINO ASSENTIU. “AO SUL DA SUÉCIA, NAS MINAS ABANDONADAS DE KULLTORP. EMBAIXO DO LAGO MJØSA, NA NORUEGA. E NAS PROFUNDEZAS DO SANTUÁRIO ESQUECIDO DE ROSKILDE, NA DINAMARCA. HÁ SEMENTES EM CADA PONTO ANTIGO, PULSANDO. ESPERANDO.”
EIRIK ENCAROU O HORIZONTE. “NÃO PODEMOS ESPERAR QUE OS REIS SE REÚNAM OUTRA VEZ. SERIA LENTO. POLÍTICO. ELES DISCUTIRIAM O QUE VESTIR ANTES DE AGIR.”
FREYDIS CUSPIU NO CHÃO. “ENTÃO QUEIMAMOS OS LUGARES ANTES QUE ALGO NASÇA.”
O MENINO ABRIU A MÃO, E UMA PEQUENA PEDRA TRANSLÚCIDA CAIU NA NEVE. DENTRO DELA, GIRAVAM IMAGENS FUGIDIAS — RELANCES DE TORRES, OLHOS, DENTES.
“LEVEM ISSO À MONTANHA. ABRAM AS CÂMARAS. SE VIREM ALGO QUE RESPIRA, MATEM. SE ESCUTAREM UM NOME, NÃO O REPITAM. SE VIREM MEU ROSTO… CORRAM.”
E, SEM AVISO, ELE COMEÇOU A CAMINHAR PARA LONGE — NÃO POR TRILHA, NEM ESTRADA, MAS DIRETO PELA FLORESTA, SUMINDO ENTRE OS TRONCOS COMO SE NUNCA TIVESSE EXISTIDO.
EIRIK FICOU EM SILÊNCIO POR ALGUNS INSTANTES. DEPOIS SE VIROU PARA OS OUTROS.
“VAMOS À SKARSJÖLD.”
ELES PARTIRAM ANTES DO NASCER DO SOL.
NENHUM DELES NOTOU QUE, NAS ÁRVORES ATRÁS, TRÊS PARES DE OLHOS DOURADOS OBSERVAVAM.
A VIAGEM ATÉ SKARSJÖLD LEVOU CINCO DIAS. O CAMINHO ERA TRAIÇOEIRO, ATRAVESSANDO VALES QUE PARECIAM TER SIDO RASGADOS POR GARRAS GIGANTES. AS ÁRVORES ALI ESTAVAM SECAS, APESAR DO GELO. AS SOMBRAS SE MOVIAM MESMO QUANDO NÃO HAVIA SOL.
NO TERCEIRO DIA, ENCONTRARAM UMA PATRULHA VINDA DA NORUEGA. OU O QUE RESTAVA DELA. QUATRO CORPOS CRAVADOS NO GELO, COM OS OLHOS ARRANCADOS E RUNAS ESCULPIDAS NAS TESTAS. UMA MENSAGEM SEM PALAVRAS.
“ESSAS RUNAS NÃO SÃO HUMANAS,” MURMUROU THORMUND. “NEM DOS DEUSES. SÃO DE ANTES.”
NINGUÉM RESPONDEU.
NA MANHÃ DO SEXTO DIA, AVISTARAM A MONTANHA. SKARSJÖLD SURGIA NO HORIZONTE COMO UMA MURALHA BRANCA, SEM TRILHAS, SEM PICOS VISÍVEIS — APENAS GELO E PEDRA, FUNDIDOS EM UMA ÚNICA MASSA ANTIGA, ANTERIOR AOS MAPAS, ÀS ALDEIAS E AOS NOMES.
FREYDIS FOI A PRIMEIRA A SENTIR O CHÃO VIBRAR. UM SOM ABAFADO, COMO TAMBORES ENTERRADOS. MAS QUANDO TODOS PARARAM PARA OUVIR, O SOM CESSOU.
CHEGARAM À ENTRADA DA CÂMARA AO ANOITECER. ERA UM ARCO DE GELO NEGRO, CRAVADO EM ROCHAS QUE NÃO REFLETIAM A LUZ. NENHUMA CRIATURA VIVIA ALI — NEM AVE, NEM LOBO, NEM INSETO.
A PORTA ESTAVA ENTREABERTA.
EIRIK TROCOU OLHARES COM THORMUND. “ACHÁVAMOS QUE ESTARIA SELADA.”
“TALVEZ TENHA SIDO,” RESPONDEU O VELHO. “MAS ALGUÉM ENTROU. OU SAIU.”
FREYDIS SE ADIANTOU, ESCUDO À FRENTE, ESPADA BAIXA. CADA PASSO ECOAVA COMO MARTELO EM OSSOS OCOS. A ESCURIDÃO DA CÂMARA PARECIA VIVA, ESPESSA, CHEIA DE RESPIRAÇÃO SEM SOM.
NO CENTRO DA SALA, HAVIA UM PEDESTAL FEITO DE GELO CRISTALINO. SOBRE ELE, UM OVO. ALTO COMO UM HOMEM. NEGRO, LISO, COBERTO POR VEIOS AZULADOS QUE PULSAVAM LENTAMENTE.
“NÃO TOQUEM,” ORDENOU EIRIK. “NADA. NEM O AR AQUI.”
MAS THORMUND JÁ SE AJOELHAVA, OLHOS FIXOS NO OBJETO. SUSSURRAVA PALAVRAS EM UMA LÍNGUA QUE NEM ELE SABIA QUE CONHECIA. OS OUTROS FICARAM TENSOS.
“THORMUND?” CHAMOU EIRIK.
O VELHO NÃO RESPONDEU. APROXIMOU O ROSTO DO OVO.
FREYDIS AVANÇOU, AGARRANDO-O PELO OMBRO. “THORMUND!”
O VELHO CAIU DE JOELHOS, ARFANDO. SEUS OLHOS ESTAVAM EM BRANCO. DA SUA BOCA ESCORRIA GELO.
“ELE... VIU...” MURMUROU. “VIU ATRAVÉS DE MIM.”
E ENTÃO O OVO TREMEU.
FOI SUTIL, QUASE IMPERCEPTÍVEL. MAS TODOS VIRAM. UMA VIBRAÇÃO, COMO SE O QUE ESTAVA DENTRO TIVESSE ACORDADO.
FREYDIS PUXOU A ESPADA. “MATAMOS AGORA?”
EIRIK HESITOU. “E SE NÃO FOR O ÚNICO? E SE MATÁ-LO O CHAMAR?”
O PEDESTAL BRILHOU. AS VEIAS NO OVO SE EXPANDIRAM, COMO UMA REDE CRESCENDO SOB A CASCA. UM ESTALO CORTOU O SILÊNCIO.
UMA RACHADURA.
NÃO DO OVO.
DA MONTANHA.
ATRÁS DELES, A PAREDE SE ABRIU. NÃO POR EXPLOSÃO. ELA SE AFASTOU SOZINHA, COMO SE A PRÓPRIA PEDRA OBEDECESSE. E DO CORREDOR REVELADO, PASSOS — PESADOS, CADENCIADOS, FRIOS.
E UMA VOZ ROUCA, BAIXA, DISTANTE COMO O FUNDO DE UM ABISMO:
“VOCÊS CHEGARAM TARDE.”
DOS CORREDORES, SURGIU UMA FIGURA. ALTA, COBERTA POR UM MANTO FEITO DE PELES QUE PARECIAM PERTENCER A ANIMAIS QUE NÃO EXISTIAM MAIS. O ROSTO ESTAVA ESCONDIDO SOB UM ELMO RETORCIDO, FEITO DE OSSO E GELO FUNDIDOS. EM VOLTA DA CRIATURA, A PEDRA RANGIA, RETRAINDO-SE COMO SE TIVESSE MEDO.
“VOCÊS QUEBRARAM O SELO,” DISSE A CRIATURA. “MAS ELE JÁ ESTAVA ROMPIDO. VOCÊS NÃO VIERAM IMPEDIR. VIERAM ASSISTIR.”
EIRIK DEU UM PASSO À FRENTE. “QUEM É VOCÊ?”
“SOU O ECO DO QUE VIRÁ,” RESPONDEU. “O PRIMEIRO ENTRE OS ÚLTIMOS.”
ATRÁS DELE, NAS PAREDES DA CÂMARA, OUTRAS RACHADURAS COMEÇARAM A SURGIR. DELAS, EMERGIAM OLHOS. APENAS OLHOS — DEZENAS, CENTENAS — QUE SE ABRIAM NA ROCHA, OBSERVANDO, IMÓVEIS. NENHUM ERA IGUAL AO OUTRO.
O OVO NO PEDESTAL EMITIU UM SOM. NÃO UM ESTALO, MAS ALGO MAIS PARECIDO COM RESPIRAÇÃO. LONGA. LENTA.
VIVA.
FREYDIS MOVEU-SE, RÁPIDA. ERGUEU A ESPADA, MIROU A RACHADURA DO OVO E GOLPEOU COM TODA SUA FORÇA.
A LÂMINA RÚNICA SE PARTIU EM TRÊS.
O IMPACTO JOGOU FREYDIS CONTRA A PAREDE. ELA CAIU, INCONSCIENTE.
EIRIK CORREU ATÉ ELA, MAS NÃO HOUVE TEMPO PARA SOCORRO.
DO OVO, UMA LUZ NEGRA COMEÇOU A SE EXPANDIR. NÃO ILUMINAVA — APAGAVA. COMO SE SUGASSE TUDO AO REDOR: CALOR, SOM, ATÉ MEMÓRIA.
A CRIATURA ENCAPUZADA ESTENDEU OS BRAÇOS.
“AGORA ELE LEMBRA.”
THORMUND, AINDA AJOELHADO, LEVANTOU O ROSTO PELA ÚLTIMA VEZ. SEUS OLHOS HAVIAM VOLTADO AO NORMAL, MAS AGORA HAVIA PAZ NELES. ELE SUSSURROU: “DESCULPEM. EU ABRI... PARA DAR TEMPO..."
DO SEU CAJADO, UMA CENTELHA DE LUZ CORREU ATÉ O PEDESTAL. UM CLARÃO AZUL EXPLODIU. A ONDA DE ENERGIA COLIDIU COM O OVO, COM A CRIATURA, COM OS OLHOS NAS PAREDES.
TUDO PAROU.
QUANDO SE LEVANTARAM, O CRISTAL RACHADO ESTAVA APAGADO. O AR ESTAVA PARADO.
AS ALDEIAS ESCANDINAVAS QUE HAVIAM ENVIADO SEUS HOMENS PARA A EXPEDIÇÃO AGORA VIVIAM HISTÓRIAS DE LOBOS QUE SURGIAM DAS SOMBRAS. LOBOS COM OLHOS DOURADOS, QUE CORRIAM COMO O VENTO, QUE NÃO ERAM DOMADOS.
ESSES LOBOS NÃO VIERAM APENAS PARA CAÇAR.
ELES VIERAM PARA LEMBRAR.
OS LOBOS CRUZARAM O MAR BÁLTICO, CONTORNARAM FIORDES GELADOS, PASSARAM PELAS FLORESTAS PROFUNDAS DA DINAMARCA, DA SUÉCIA E DA NORUEGA. ELES NÃO TINHAM DONO, NEM MESTRE, APENAS A PROMESSA DO NORTE ANTIGO.
QUANDO CHEGARAM A YAKUTSK, PARARAM.
NA VELHA FLORESTA DE PINHEIROS NEGROS, OS LOBOS SE ESPALHARAM EM CÍRCULO AO REDOR DA CAVERNA ESQUECIDA — AQUELA ONDE HAVIAM SIDO DESPERTOS PELA PRIMEIRA VEZ.
ELES OLHAVAM PARA DENTRO.
A ENTRADA DA CAVERNA ESTAVA ABERTA.
MARCAS RECENTES NO GELO.
ALGO SAIU.
UMA CRIATURA ANTIGA, COBERTA POR ESCAMAS DE GELO NEGRO, COM GARRAS AFIADAS COMO LÂMINAS E OLHOS VERMELHOS COMO BRASAS. SEU CORPO ERA ENORME, QUASE DO TAMANHO DE UMA MONTANHA PEQUENA, MAS MOVIA-SE COM A AGILIDADE DE UM PREDADOR.
ELA AVANÇOU PARA FORA DA CAVERNA, ROMPENDO O SILÊNCIO DA FLORESTA COM UM RUGIDO PROFUNDO QUE FEZ A TERRA TREMER, AVISANDO AOS LOBOS QUE ERA A HORA DE VOLTAR PARA JUNTO DO RESTANTE DA SUA ALCATEIA.